terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Os Heróis da Minha Infância

Por: Joilson Kariry Rodrigues

O sertão é povoado de heróis.
Em meus tempos de menino vi a fulô do mandacaru fulorar na seca, vi o avoar do carcará que é bicho danado, rei dos céus. Dona Das dores pegou pra mais de duzentos meninos na porta do nascimento, com a ajuda de Nossa Senhora do Bom Parto e Padim Ciço. Pegou-me também, numa manhã de outubro escaldante. A benção, mãe Das dores! era cumprimento obrigatório, sem enxerimento. O carcará é rei dos céus do sertão e pega menino pequeno que se aventura nos monturos. Mãe Das dores perdeu pra mais de dez rebentos pro carcará, ela dizia. Xô, bicho malvado, xô. Tem que botar sarro de cachimbo no umbigo que é pra sarar logo, mas também pra espantar o bicho do céu, ave de rapina. A coruja rasga-mortalha vem primeiro e dar o aviso de morte, depois o cachorro agoura uivando, confirmando a desgraça, aí o carcará vem e carrega o distraído. Cruz credo!
Cresci assim, respeitando essas coisas de sabedoria infinita, vendo surgir meus heróis do sertão. O sertão pariu Virgulino e Cego Aderaldo, Patativa e Vitalino, Gonzagão e Normando, Abidoral e Dihelson. Padim Ciço ta lá, de olho espichado vendo tudo, dando proteção ao sertanejo e inspiração a nossos ídolos.
Vi tempo brabo acolá, o chão se adubando de anjinhos, a fulô do cacto enfeitando o torrão, soberana e solitária. Assim cresci naquele solo poderoso, vivi minha adolescência e meus heróis.
Uma Patativa cantava lá pros lados do Assaré, a Asa Branca de Exu voava nos céus do Brasil. Vicelmo dava noticias do sul, sem sofisma e sem fantasias. Pra mim o mundo era só um torrão rachado como os pés do sertanejo, uma terra agonizante implorando água. Tio Chico Recanto, o profeta, dizia coisas ruins daqueles anos, ele via no sereno da madrugada. O velho recomendava reza para desfazer suas adivinhações. Tinha reza nas novenas de maio, sem a presença do santo carpinteiro, este padecia de cabeça pra baixo em algum cativeiro de beata, que era pra dar chuva. Eu ia às novenas sem interesse nas rezas, trajando minha única camisa azul de volta-ao-mundo, pés descalços, quase já me pondo homem. Queria mesmo era ouvir as cantigas dos Benditos, os hinos católicos que as mulheres entoavam em coro. E aquele espetáculo de vozes à capela, nas noites de novenas, ainda enchem os ouvidos das minhas lembranças. Ali eu assisti meus primeiros concertos musicais. Depois do show voltava para casa, esquecido da falha no meu compromisso de reforçar a súplica por chuva, deslembrado da fome, cantarolando em sussurro os benditos que minha memória desarranjada teimava em não decorar.
Os dias brancos iam e vinham, quentes, bafejando mormaço, dando relâmpagos lá no canto do poente, enganando o sertanejo com promessas inúteis. Tio Chico, o profeta, aconselhava reza, eu não rezava, só assistia ao show das cantadoras das novenas, encantado e sem remorsos, avexado por outra noite.
Vicelmo dava notícias do sul, sem sofisma e sem fantasias, o Governo ia olhar por nós. O mundo era torrão todo rachado e todos os caminhos levavam ao Crato. Eu era um menino do sertão, bicho manso embrutecendo nas capoeiras, com a alma inundada de cantiga de novena, achando que o sertão era do tamanho do mundo, grande e rachado, e todas as águas estavam represadas num tal açude de Óros, que nas conversas de meninos era maior que todos os oceanos juntos.
A poeira dos caminhos, que só davam pro Crato, redemoinhava no vento da boca da noite, levando o Cão no miolo da carrapeta de vento, forçando a gente a fazer o sinal da cruz. E foi num giro de vento desses que chegaram os cantadores repentistas, meus primeiros heróis. Contaram histórias em rimas ligeiras, desafios improvisados, causos de príncipes valentes de reinos mais longe que o Juazeiro. Depois foram embora num vento que deu de madrugada.
E veio o circo São Jorge. O maior circo do mundo, gritava o palhaço se equilibrando em pernas de paus. Nós, os meninos do sertão, seguíamos o nosso novo herói rua afora, fazendo festa, protegendo a marca de carimbo decalcada no dorso da mão, que nos dava direito à entrada grátis. O maior circo do mundo tinha uma lona azul com amarelo, cheia de remendos, e uma equilibrista bonita que ensinava qualquer menino a arte de tragar um cigarro desfiado. Por algumas moedas ainda podia-se ganhar um beijo na bochecha, tudo escondidinho. Depois vinha o melhor que era contar pros outros, apresentar as evidências em manchas de batom encarnado, quanto mais próximo da boca mais inveja causava.
E o circo foi embora prometendo voltar, jamais voltou. Então inventávamos outras vadiagens para esquecer a espera inútil.
O sertão era imenso, a maior de todas as terras. E vinha na poeira dos caminhos os homens de gibão. Tangiam boiadas magras, bebiam cachaça e davam aboios tristes que me faziam querer chorar. Não sei se eram homens, se eram lendas, só sei que amei aqueles seres bárbaros.
A lua mora no sertão e pouco sai de lá para visitar outras terras. Acho mesmo que foi o sertão quem pariu a lua, ou o inverso, porque lá ela se acende como uma coivara em chamas no céu. E se dá aos bichos da caatinga, aos amantes, alumia os caminhos por onde andou Lampião e seu bando de justiceiros. Alumia as calçadas, as ruas, os alpendres, invade as casas na hora de dormir, pelos buracos das paredes de taipas. A lua é intrusa, mãe do sertão, ou filha, parceira do Caipora. E um dia eu descobri que a lua do sertão é o melhor presente que se dar a uma namorada.
E era sob o olhar majestoso da lua que eu ouvia as histórias dos cangaceiros, homens destemidos, mulheres valentes. E no dia seguinte dávamos vida a esses nossos heróis, em nossas brincadeiras de cangaço e volante.
Se aprendia a soletrar o be a ba no cordel, nossa cartilha encantada. Aí o sertão era pequeno pra tanta história bonita. E um dia eu conheci um desses mágicos, que pintavam nossa imaginação com figuras lendárias, Normando Rodrigues, o homem do Quixará.
O sertão ardia feito brasa de angico em fogueira de São João. Não dava chuva, só relâmpagos inúteis no canto do poente. A asa branca do Exu voava suplicando amparo ao povo flagelado, Vicelmo irradiava notícias do sul, outras terras bem longe dali, onde morava o Governo que ia nos acudir. Os irmãos Jamacaru cantavam nossas dores, Patativa cantava nossas dores, Dihelson Mendonça aprendia a ser herói pros meninos de hoje.

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