terça-feira, 22 de julho de 2008

O filósofo cearense Farias Brito ganha releitura


Henrique Araújo
especial para O POVO

No final da primeira quinzena de dezembro de 1953, Quixará, no interior cearense, deixava de ser Quixará para se tornar Farias Brito. Pôs de lado o nome indígena que significava "algo composto de queixadas" e adotou a denominação de um dos filósofos mais importantes do Estado. No embate local entre as duas culturas - civilização ocidental versus indígena -, a tribo dos cariús saiu perdendo. Mesmo desconhecendo a origem do novo nome, os poucos habitantes da cidadezinha passaram a ser referidos como farias-britenses.

Morto em 1917, no Rio de Janeiro, o filósofo cearense não teve qualquer coisa a ver com a querela. Vivo, talvez pouco se importasse. Farias Brito morava noutro plano, mais metafísico. Ocupavam-no a consciência de si e a finalidade das coisas, do mundo. De qualquer forma, a mudança de nome foi um modo arrevesado que o poder municipal encontrou de lhe prestar homenagem. Embora questionável, a medida é compreensível. Professor de filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e estudioso da obra de Farias Brito, Luiz Alberto Cerqueira dirige-se ao nordestino como o "genial cearense". Para Cerqueira, ele foi o "nosso primeiro filósofo profissional", ainda nos idos do século XIX, quando a filosofia engatinhava e a república era forjada em reuniões secretas Brasil adentro. "Embora Farias Brito tenha marcado a própria presença na história pela sua visão universal dos problemas, a dedicação ao estudo teórico jamais impediu que ele assumisse a sua condição com o povo cearense, nordestino e brasileiro".

Obra capital
Luiz Alberto Cerqueira dedicou parte do seu tempo à revisão de uma das obras capitais do cearense de São Benedito: O mundo interior, de 1914. Seu derradeiro esforço metafísico. Diretor do Centro de Filosofia Brasileira, Cerqueira reviu edições anteriores e cotejou-as. Em seguida, suprimiu erros tipográficos e atualizou a ortografia. Noutro estágio, organizou as notas e referências presentes no texto. "Nosso trabalho consumiu mais de dois anos, inclusive envolvendo pesquisas junto à biblioteca pessoal de Farias Brito no Colégio Pedro II, no Rio". Segundo o professor, a reedição, publicada pela editora Vozes, é "crítica, com introdução filosófica e se tornará indispensável a todo o estudioso da filosofia no Brasil".

Em artigo publicado em O POVO no último dia 5 de abril, o doutorando e professor do Liceu do Ceará, Júlio Filizola Neto - que defende, amanhã, na Faculdade de Educação da UFC, tese de doutoramento sobre a vida e a obra de Farias Brito - apresenta alguns aspectos do sistema filosófico construído pelo cearense. "Farias Brito nos coloca a necessidade de filosofar. Ele é considerado pela maioria dos estudiosos da cultura brasileira como um dos grandes nomes da filosofia no Brasil", escreve. "Quem diria que aquele rapazola de 15 anos, que saíra com sua família fugindo da terrível seca de 1877-1878, iria ter destaque num ramo de conhecimento que é a própria base da civilização ocidental".

"Do nosso ponto de vista, Farias Brito representa o coroamento de uma singular experiência histórica de pensar correspondente ao nascimento da filosofia no Brasil", defende Cerqueira, que participa, como examinador, da banca que avaliará a defesa de Filizola.

Quem foi Farias Brito
Raimundo de Farias Brito nasceu em 24 de julho de 1862, em São Benedito, no Ceará, e morreu em 17 de janeiro de 1917, no Rio de Janeiro. Estudou em Sobral, mas, fugido da seca, veio para Fortaleza. Estudou no Liceu do Ceará. Formou-se na Faculdade de Direito, em Recife, em 1884. Foi aluno de Tobias Barreto, referência para a escola de pensamento em voga na capital pernambucana. Foi secretário do Governo do Estado do Ceará e professor de uma faculdade em Belém (PA). Após formar-se em Recife, voltou para o Ceará, onde deu aulas em Aquiraz e Viçosa. Mudou-se para o Rio em 1909, onde exerceu o magistério como docente de Lógica, no colégio Pedro II, desbancando, no exame de admissão, Euclides da Cunha, autor de Os sertões. Também trabalhou como promotor e advogado. Publicou: Finalidade do Mundo, trilogia integrada pelos volumes A Filosofia como atividade permanente do espírito humano (1895); A filosofia moderna (1899); e Evolução e Relatividade (1905). De sua autoria constam ainda A Verdade como regra das ações (1905), A base física do espírito (1912) e O mundo interior (1914).

CONTEÚDO EXTRA
Leia entrevista com Luiz Alberto Cerqueira no site www.opovo.com.br/conteudoextra

Fonte: Jornal O POVO
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