quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Penitentes resistem no Cariri

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No Sítio São João, lugar considerado místico pelos moradores, uma Lua misteriosa apareceu acima dos penitentes Cícero e Pedro (Foto: Antônio Vicelmo)

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Pedro Tenório, penitente-decurião, mostra o cacho de disciplina, instrumento de auto-flagelação
 

Pela primeira vez, um grupo de penitentes de Farias Brito decide conceder entrevista e revelar mistérios

Farias Brito. Remanescentes de um antigo grupo de penitentes do Cariri mantêm viva a tradição de venerar a Deus, martirizando o corpo contra os pecados. Eles varam a madrugada, nas estradas ermas e poeirentas do sertão, a procura de cruzes e cemitérios abandonados. Em Farias Brito, dois agricultores de um antigo grupo de oito penitentes cumprem um ritual que foi iniciado no ano de 1955.

De um lado, a Serra do Quincuncá que, segundo os moradores, abriga lobisomens e caiporas. Do outro, a Vila Nova Betânia, cujo nome foi inspirado na aldeia israelense de Betânia, nas cercanias do Monte das Oliveiras, perto de Jerusalém, onde, segundo a Bíblia, Jesus Cristo transmitiu alguns de seus ensinamentos antes da sua crucificação.

O clima ficou mais místico, quando, em uma foto feita pela reportagem, apareceu um sinal estranho, parecido com uma lua cheia, do lado direito da fotografia. A imagem foi mostrada pelo visor da máquina aos presentes, que ficaram surpresos, uma vez que o céu estava limpo. Não havia nenhum sinal de Lua. Os professores Eldinho Pereira e Miralva Guedes, que acompanharam a reportagem e mais um grupo de moradores da localidade, testemunharam o que eles classificaram de fenômeno inexplicável, mesmo porque, segundo os moradores, a Lua tem uma trajetória diferente na localidade rural.

A foto foi feita entre 18 e 17 horas do último dia 29. Era Lua nova, quando, segundo o calendário lunar, o hemisfério da lua voltado para a Terra não reflete nenhuma luz do Sol. A Lua nova só é visível durante os eclipses do Sol que, aliás, só acontecem durante esta fase lunar. Neste período, o ângulo entre Sol, Terra e Lua é praticamente zero. A Lua nova nasce por volta das 6h da manhã e se põe às 18h, ou seja, ela transita pelo céu durante o dia.

Entre os moradores do Sítio São João, onde foi feita a foto, em frente à capela de Nossa Senhora Aparecida, foi levantada a suspeita de que era um objeto não identificado que teria cruzado a Serra do Quincuncá. Apareceu a versão de que poderia ser um “fogo fátuo”, uma luz azulada que pode ser avistada em cemitérios, pântanos ou brejos. A ciência explica que o fogo fátuo é a inflamação espontânea do gás dos pântanos (metano), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente natural.

É neste ambiente, cercado de crenças, lendas e misticismo, que os dois eremitas dão continuidade a uma prática religiosa fundamentada na adoração, obediência, oração e penitência, tudo isso corporificado em ritos estranhos que chegam a beirar o limite do racional, pelos menos sob a ótica da sociedade contemporânea que acredita viver a plenitude da pós-modernidade.

Um dos seus rituais é a auto-flagelação que só ocorre na Semana Santa. Açoitam-se com três lâminas de ferro bem amoladas medindo cinco por quatro centímetros, amarrados numa tira de couro, até escorrer sangue das costas. Acreditam que é uma forma de purgar os pecados. O agricultor Cícero Rosendo diz que vai cumprir esta penitência até o fim de sua vida. “Foi uma promessa que fiz para não faltar inverno. Tenho que cumpri-la”, promete.

Segredo

A irmandade, como eles próprios gostam de ser chamados, ainda mantém o segredo, “guardado a sete chaves”, de não identificar os seus integrantes. Antigamente, ninguém, nem mesmo a família, sabia quem participava daquela confraria secreta que se reunia nas caladas da noite e andava nas estradas com o rosto coberto, vestido com roupas medievais, portando instrumento de auto-flagelação, entoando benditos e amedrontando as crianças com o seu cantochão característico.

A indumentária dos penitentes se compõe ainda das seguintes partes: o hábito santo, cacho-disciplina (carregada ao pescoço) e o cordão de São Francisco amarrado à cintura. Há uma “liberalidade” no que se refere ao colorido dos seus hábitos. Alguns grupos se utilizam do preto, do azul e do vermelho sendo que, especificamente em Farias Brito, o vermelho é a cor escolhida pela maioria dos seguidores.

O mistério começa a ser desvendado. Por solicitação do historiador Eldinho Pereira da Silva, que mostrou a importância que eles têm para a cultura popular, o líder do grupo, Pedro Tenório, resolveu receber a reportagem do Diário do Nordeste. Pela primeira vez, eles mostram a cara, antes era coberta com mantos brancos e, também, quebraram o silêncio sobre o que eles consideram mais sagrado: a devoção.

ORIGEM DO GRUPO
Tradição começou no século passado

Penitente-decurião rememora a origem do grupo, no ano de 1955 do século passado, na zona rural do Cariri

Farias Brito. O decurião, líder do grupo, Pedro Tenório, conta que em meio à seca de 1955, ele e outros camponeses foram aconselhados por Eduardo Freire, um proprietário residente no Sítio Riacho da Roça, a formar um fervoroso grupo de oração. Com a morte de Freire, e a aceitação dos sacrifícios por alguns membros, os trabalhos doutrinários continuaram na localidade.

Com o correr dos anos, os integrantes foram morrendo. Outros se entregaram à bebida. Restaram somente os primos e compadres Pedro Tenório e Cícero Rosendo, irmanados no sofrimento, na devoção e na esperança de encontrar o que não conseguiram na terra: “um mundo de paz e alegria, junto a Deus”, segundo destacam.

“Hoje, na classe de hoje, ninguém quer penitência, meu amigo. Quer saber é de um forró, é de uma tertúlia, é disso e daquilo outro”, lamenta Pedro Tenório, complementando: “Na Semana Santa, não respeita nem a sexta-feira, que nem o senhor sabe que em dia de sexta-feira tem é bares aberto, com o povo bebeno pinga, botano boneco”. Ao fazer o desabafo, o velho penitente lamenta o comportamento da juventude que, segundo afirma, “está totalmente voltado às coisas mundanas, ao pecado”.

O velho decurião, com 77 anos de idade, já não acalenta mais a esperança de conseguir outros companheiros de penitência. O seu sectarismo religioso é demonstrado num pedido: “Quando eu morrer, quero ser enterrado com a roupa de penitente, o cacho-disciplina e o cordão de São Francisco”.

O Dia de Finados, para eles, não é um dia de penitência. É um momento de reflexão, de rezar pelas almas. Por isso, eles não se auto-flagelam nesta data. A auto-flagelação é praticada, com mais intensidade, na Semana Santa.

Trata-se de um ritual marcado pela autodisciplina imposta ao corpo, como forma de “salvar cruzes” pertencentes a almas sofredoras e de se aproximar do Criador celeste por meio da devoção. A interrupção da súplica cristã acontece já ao entardecer, com o grupo ajoelhado diante de uma cruz, um chicote de couro com navalhas à mão e o sangue correndo pelas costas dilaceradas durante o ritual.

No fim de semana anterior, pela passagem para o Dia de Finados, eles fizeram o ritual de “salvar as cruzes”, que consiste em rezar e cantar nos pés das cruzes de beira de estrada. Os penitentes cumprem também a tradição de pedir esmolas nas casas dos sítios. Num ritmo dolente, eles cantam: “Se alevanta pecador/ Faz o teu sinal da cruz/ Se tiver dormindo acorde/ E ouça o pranto de Jesus/ Se os teus pés já resistiu/ E alguém já acendeu a luz/ O irmão nos dê uma esmola/ Pela chaga de Jesus”.

O professor e historiador, Eldinho Pereira da Silva, analisa que nesse cântico há um discurso explícito e recorrente sobre o sofrimento de Jesus em prol da salvação da humana. Ainda que de forma subjetiva, no mesmo texto, também é disseminada a idéia de jejum como uma virtuosa representação, uma continuação do sofrimento necessário para o pagamento dos pecados. Todavia, essa busca espiritual por meio do sofrimento físico, constitui uma prática do tipo pessoal e disjunta das propostas de libertação social, coletiva. Mesmo assim, o tempo passa e seus adeptos não desistem do chamado sagrado.

Quando o dono da casa demora a se levantar, na intenção de cansar Pedro Tenório e os demais pedintes, eles cantam o seguinte: “Jesus quando andou no mundo/ Dizia a São Pedro assim/ Jesus quando andou no mundo/ Dizia a São Pedro assim/ Quem não quer pobre na porta/ Também não quereis a mim!”’. Ao relembrar as pregações de Jesus os penitentes colocam o proprietário sonolento em situação difícil, até que apareça e dê a esmola.

SAIBA MAIS

Medieval

Considerada uma manifestação religiosa inerente ao Dia de Finados e uma das mais importantes relacionadas à Semana Santa, a procissão de penitentes é uma tradição de origem medieval e ibérica. Trazida pelos conquistadores portugueses, o cortejo espalhou-se por diversos lugarejos do sertão nordestino.

Benditos

Normalmente, os devotos apresentam-se cantando antigos benditos, adaptados conforme costumes e linguajar locais. No entanto, estimulado pelas secas, epidemias e atrocidades que marcaram o final do século XIX, ou mesmo, por um intenso misticismo que atribuía toda desgraça às transgressões humanas, a auto-flagelação ganhou fôlego novo.

Extinção

Foi assim que a idéia de penitenciar o corpo para purificar a alma chegou até os místicos dos dias atuais. A prática religiosa, no entanto, tende a desaparecer, já que não há novos seguidores.

Mais informações:
Professores Eldinho Pereira da Silva e Miralva Gudes
Crato, (88) 3523.7347

ANTÔNIO VICELMO
Repórter

O QUE ELES PENSAM
Ritual lembra comovente peça teatral

Em meio aos sons de cânticos, chicotes e gemidos, eis que surge o sangue humano. Para os devotos, o sangue simboliza o martírio de Cristo em prol da salvação humana. O ritual de penitência lembra uma comovente peça de teatro ao ar livre. Mas logo se percebe que o fervor religioso evoca a mais rústica e tradicional das formas de religiosidade popular em nosso meio. Evoca as dificuldades de sobrevivência dos camponeses em uma sociedade injusta e complexa. O fenômeno é uma prova da resistência aos novos padrões culturais da sociedade moderna.

Eldinho Pereira da Silva
Historiador

Mesmo vistos por alguns membros da Igreja como o resultado de um “desvio da interpretação bíblica”, os penitentes do Cariri continuam firmes em sua árdua missão. Herdeiros de uma tradição que hoje o próprio clero desaprova, porque os sacrifícios diminuem o homem ao invés de valorizar a sua relação com Deus, eles se inserem no contexto da religiosidade popular enraizada na região. Atualmente, os padres já não levam mais ao pé da letra o livro do Apocalipse, escrito pelo apóstolo João e se preparam para uma nova evangelização e ardor missionário.

Miralva Guedes
Professora e pesquisadora
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