domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Sertanejo

Seu doutor sou sertanejo
Num sei ler mais eu pelejo
Fazer meu verso rimado
As vez num sai direito
A rima num sai perfeito
E o verso fica quebrado.

Patativa do Assaré
Nosso poeta de fé,
Que Deus tenha lá em cima.
Disse que no mês de maio
Nasce um verso em cada gaio,
E em cada flor uma rima.

Que poeta de valor
Num precisa professor
Prá lhe ensinar a rimar.
Ser poeta é dom e arte
Da obra de Deus faz parte,
Quando nasce Ele já dar.

Num preciso de cultura,
Ciência ou boa leitura,
Prá falar do meu sertão.
Tenho tudo que preciso,
Pois é mermo um paraíso
O meu pedaço de chão.

De modo que levo a vida
Cuidando da minha lida
Mermo sem ter estudado.
Mas falo de coração
Nas coisas do meu sertão
Eu sou um doutor formado.

Da terra eu conheço bem
De tudo que ela tem,
Tiro sempre bom proveito.
E o senhor é um marombado
Fica a botar mal olhado
No que não sabe direito.

Eu vou falar a verdade
Num conheço a cidade,
Mas isso não me aperreia.
Pois conheço meu sertão
Por cada palmo de chão
E cada grão de areia.

E duvido que o senhor
Com seus trajes de doutor
Conheça bem seu lugar.
Como eu conheço sertão
Como a palma da mão
E tudo que nele há ...

...E as nossas árvores fruteiras?
Seriguela, mangueiras,
Pitombeiras, cajueiros,
Graviola, pinha, condessa,
E antes que eu esqueça,
Vários tipos de umbuzeiros.

Sei que num sabe o que é,
Mas tem o coco catolé,
Que só se encontra no serrado.
Onde a terra é mais molhada,
E a mata é mais fechada,
Do que é pelo baixado.

Também tem a carnaúba,
Goiabeira, macaúba,
Mutamba e tamarina.
Ameixa e limão da terra,
E as vez no pé da serra,
Argum pé de tangerina.

...Dos Passarim cantador
Que vosmecê seu doutor
Num sabe nem se existe.
Eu conheço um por um,
E o canto de cada um
Desde o alegre ao mais triste...

Eu não vou me aparecer
Falando pra vosmecê
O nome de cada um.
Mas só prá lhe provocar
Meu senhor eu vou falar
Somente o nome de argum.

O anum branco e preto,
O João de barro arquiteto,
O nambu e a juriti.
O rouxinol do telhado,
O gavião do serrado,
A patativa e o bem-te-vi.

Além do bico de osso,
O azulão assanhaço,
E o azulão de urtiga.
Também o galo campina,
O uirapuru da colina,
Que é o rei da cantiga...

Dois tipos de sabiá
Que quando dana a cantar,
Inveja quarquer cantor.
O careta, o coleirinha,
Lavadeira e andorinha,
E vária espécie de beija flor.

Canários de vários tipos,
Araras e periquitos,
Crespina e muito mais.
E só pra causar inveja,
Voando em nossa igreja,
Os rebanhos de pardais.

Rolinhas têm de montão
Além do lindo cancã
Papagaio inteligente.
Quase todo mudo cria,
Ele canta e assobia
Melhor do que muita gente...

...Me desculpe por lhe falar
Vosmecê vai concordar,
Proque eu tenho razão.
Falar verdade é preciso
Só conhece o paraíso
Quem conhece o meu sertão.

Francis Gomes
Postar um comentário