quarta-feira, 6 de maio de 2009

Perda da safra já chega a 122 mil toneladas

Dados preliminares mostram perdas nos plantios em quase todas as regiões do Estado por causa das chuvas

Fortaleza. As fortes enchentes que assolam o Ceará também trazem prejuízos para a lavoura. Em reunião realizada, ontem, pelo Grupo de Coordenação das Estatísticas Agropecuárias do Ceará (GCEA-CE), o cálculo preliminar apresentado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão do Ceará (Ematerce) é que houve perda de safra, em média, de 7,55% até o dia 30 de abril. A previsão era colher 1.406.169 toneladas no início do ano, e agora a expectativa é de que a safra seja de 1.284.000, levando a uma perda de 122.169 toneladas. Segundo a Ematerce, as regiões mais atingidas foram as do Baixo Acaraú (perda de 24,2%), do Cariri Leste (próximo a Mauriti, com 19,97%) e do extremo Norte (próximo ao município de Camocim, com 19,54%).

Meteorologistas da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e de outros sete Estados se reuniram em Maceió para discutir o prognóstico de chuvas no Nordeste. A perspectiva é que as condições oceânicas devem continuar favorecendo às chuvas no Ceará até o fim de maio, principalmente na região centro-norte do Estado.

Balanços parciais

Uma avaliação de perda de safra está sendo realizada em municípios do Cariri. Os produtores estão preocupados principalmente com a perda do feijão. Quanto ao milho, uma boa novidade é que a safra no Cariri terá, este ano, um aumento de, pelo menos, 17% em relação a 2008. Na última segunda-feira, o gerente regional da Ematerce, Adonias Sobreira, esteve reunido com produtores de vários municípios, quando foram relatadas perdas em localidades das cidades como Abaiara, Missão Velha, Jardim, Várzea Alegre, Farias Brito e Santana do Cariri. A avaliação continua até a próxima semana.

Em Sobral, o gerente regional da Ematerce da zona norte, Francisco Jader de Albuquerque, avalia que ainda é cedo para informar de quanto será a perda na safra este ano, mas que calcula algo em torno de 20%. Ele tomou como base o que foi plantando nas áreas ribeirinhas por agricultores de pequeno porte.

O gerente espera fornecer dados mais precisos dentro de 15 a 20 dias. “Os nossos técnicos vão visitar cada roçado e avaliar se houve ou não perda total nessas áreas”, explica o gerente. Na região que Jader Albuquerque gerencia não estão incluídos os municípios de Chaval e Granja, que fazem parte da regional extremo norte, com sede em Camocim.

Mas na avaliação do coordenador da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura do Ceará (Fetraece), regional de Sobral, José Ferreira, os números são bem mais assustadores. “Em Granja e Chaval acreditamos que a perda poderá ultrapassar 90%, enquanto que em Cruz e Bela Cruz, os prejuízos na lavoura deverão chegar a 70%”.

Reunião

O coordenador ainda informa que cada agricultor está sendo orientado a fazer um relatório informando as perdas. “Hoje estaremos reunidos em Fortaleza com todos os representes sindicais das regiões atingidas pelas chuvas, para que possamos avaliar a real situação de cada município”, disse José Ferreira.

Já em Iguatu, as cheias provocaram a perda parcial das lavouras de milho e feijão. No entanto, a região Centro-Sul ainda não tem um levantamento completo das perdas sofridas pelos agricultores. O gerente regional da Ematerce, Joaquim Virgulino Ferreira Neto, disse que se mostra preocupado com alguns dados apresentados pelos municípios com perda da lavoura superior a 50%. “Até agora a nossa estimativa média de perda é de 20%”, frisou. “Precisamos ter cautela”.

No Sertão Central, os municípios de Choró e Quixeramobim ainda não tiveram levantamento total das perdas. Apenas Choró tem estimativas parciais dos prejuízos, que devem chegar a mais de 800 hectares, a maior parte de milho. Os números anteriores apontados pela Defesa Civil local eram de 600 hectares. 

CHUVAS NO CEARÁ

Cidade / mm

Pentecoste 183
São Luis Do Curu 141
Russas 101.2
Apuiarés 99
Pindoretama 98
Maranguape 95
Potiretama 95
Itaiçaba 91
Palmácia 91
Ocara 90
General Sampaio 88
Redenção 85
Caucaia 83
Aracoiaba 80
Barro 75.1
Maranguape 73
Senador Pompeu 73
Tamboril 67
Jaguaruana 66.1

PEDIDO DE SOCORRO

Angústia e desespero em cidades ilhadas

Itaiçaba. “Estamos fazendo, das fraquezas, forças, mas tudo tem limite. É pedindo socorro mesmo. Eu peço até pelo amor de Deus, que o governador, como uma pessoa sensível que é, visite a nossa região e veja de perto o nosso desespero. Estou angustiado, quem não está desabrigado, está ilhado ou perdeu tudo”. O desabafo é de Frank Gomes, prefeito de Itaiçaba, uma das cidades mais afetadas pelas chuvas, que há dez dias estava em situação de emergência e que, ontem, decretou estado de calamidade pública, quando o município chega ao limite do possível no atendimento às vítimas. Até ontem de manhã, pelo menos 90% da zona urbana estava debaixo d´água e toda a safra já está perdida. Já são cerca de 600 famílias desabrigadas, falta abrigo, alimento, combustível, e as águas já chegam a dois metros em vários bairros. O açude Castanhão bateu novo recorde de acúmulo e os municípios baixos temem a abertura de mais comportas.

É uma situação de desespero, famílias tentando salvar o que podem. É tanta água que a quase única preocupação tem sido salvar a própria vida. Andar pelo município só de barco, nem que seja uma tábua improvisada. Indústrias cerâmicas e fábricas paralisaram as atividades para servirem de abrigo. Para piorar, continua chovendo todo dia, com registros de entre 60mm e 110mm. O surto de doenças “de inverno” mal pode ser remediado, as ambulâncias ficaram quebradas nos alagamentos na tentativa de atender vítimas. Nos postos de saúde, falta abrigo para os remédios.

A força das águas já levantou tanques de combustível nos postos de gasolina. A saída é comprar combustível nos municípios menos afetados. Caminhões de Aracati, Jaguaruana e do Rio Grande do Norte chegam trazendo ajuda.

A zona rural está 85% incomunicável com o resto da cidade. A cada dia aumenta em cerca de 50% o número de famílias desabrigadas. A Defesa Civil do Estado já tinha enviado, segunda-feira, 250 kits com cestas básicas, colchonetes e produtos de limpeza, outros 500 kits foram encaminhados ontem. O apelo do prefeito é para que haja repasse de recursos para as vítimas do Vale do Jaguaribe — o Estado repassou R$ 1,1 milhão para os atingidos na Zona Norte.

As localidades mais críticas em Itaiçaba estão na Beira Rio, no bairro Vila Nova e nas proximidades do Canal do Trabalhador. Quem perdeu “quase tudo”, porque não perdeu os familiares, foi a dona de casa Maria Sulina Nogueira, 46, da Vila Nova. “Nunca tinha visto uma coisa dessas”. Situação semelhante só nas cheias de 1979 e 1985. Itaiçaba está situado, geograficamente, na região de foz de vários rios. Jaguaribe, Banabuiú, Santo Antônio de Russas, Palhano, Araibú e Salgado são todos os rios e riachos que afluem suas águas para Itaiçaba, antes de desembocarem no mar. “Aqui a gente pega o refluxo de tudo”, resume o prefeito, que também é presidente da Associação dos Municípios do Vale. E o rio Jaguaribe continua aumentando um centímetro a cada hora.

O maior número de desabrigados na região está em Jaguaruana, também debaixo d’água, com cerca de 1.200 famílias desabrigadas. Continua faltando cesta básica, leite e colchonetes. Limoeiro também recebe apoio da Defesa Civil.

Castanhão bate recorde

A preocupação a mais da população é com a possibilidade de abertura de mais comportas no açude Castanhão, que atingiu novo recorde de acumulação. Estava ao meio dia de ontem na cota 104,56 metros acima do nível do mar – o máximo atingido foi em 2008, com 104,48m. Assim, são 6,15 bilhões de metros cúbicos armazenados, o que equivale a 91,2% da capacidade. Todos os dias são realizadas três reuniões da comissão formada por especialistas do Dnocs e da Cogerh para avaliar o açude.

Pentecoste

Um dos principais acessos à cidade de Pentecoste está inviável. A chuva de 183mm registrada ontem foi suficiente para danificar cerca de 15 metros de estrada no início da ponte do açude Mastruz com Leite. Segundo o prefeito da cidade, João Bosco, a solução foi melhorar a estrutura da via de acesso por São Luís do Curu. “A estrada de Pentecoste a Apuiarés, no distrito de Serrote está muito danificada. O nível da água está muito elevado também”.

Ele entrou em contato com a Defesa Civil do Estado para verificar os estragos na cidade. Outro distrito que passa por dificuldades é Providência. A situação é preocupante. “O distrito está ilhado. Já mandei alimentos para lá e as famílias estão alojadas em uma escola municipal”, disse. São cerca de 250 famílias desabrigadas.

Mais informações:

SDA: (85) 3101.800
Ematerce: (85) 3101.3358

Defesa Civil do Estado
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Fonte: Diário do Nordeste 
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