terça-feira, 24 de novembro de 2009

Memórias da ditadura militar


Diário do Nordeste

REVELAÇÃO NO CARIRI (23/11/2009)

Após 30 anos, Aristides Neto, de São Paulo, descreve seu trabalho no resgate de famosos presos políticos

Crato. O pesquisador Aristides Neto, que trocou São Paulo por Farias Brito, no Sul do Ceará, onde se dedica ao resgate de documentos antigos sobre a história do Cariri, quebrou o silêncio em torno do trabalho que realizava em São Paulo na época da ditadura militar. Falou sobre os famosos presos políticos que passaram por sua avaliação, entre eles o ex-presidenciável Júlio Prestes, o historiador Caio Prado Júnior, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a pesquisadora Ana Maria de Almeida Camargo e o cantor-compositor Geraldo Vandré.

Suas memórias datam de 1979-1983, quando ele atuou em um grupo de técnico e pesquisadores engajado na caçada de documentos de presos políticos, uma espécie de agência de recolhimento, mantida por um fundo privado que se dividia em três equipes, para atuar na capital e no interior do estado.

Trinta anos depois da aprovação da Lei da Anistia, o pesquisador falou para o professor Eldinho Pereira, que aponta esta entrevista como importante na revelação de fatos que envolveram a ditadura militar e que não foram devidamente esclarecidos. "Os exilados perderam quase tudo, inclusive a sua vida pessoal, intervenção na vida pública e a destruição das personalidades pela ditadura de 64", diz Eldinho. "Os torturadores brasileiros ainda estão soltos, sem a necessária exposição pública ou constrangimento das autoridades federais. Ter acesso aos arquivos da ditadura é um passo fundamental para encontrarmos estas raízes. Estamos distantes da democracia real e da efetiva liberdade de opinião, inclusive na academia", complementa o professor, responsável por "arrancar" de Aristides informações importantes para os arquivos da história.

Durante 12 anos, Aristides Neto trabalhou no arquivo da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), e no Arquivo Público do Estado de São Paulo, então situado à Rua Antônio de Queiroz. Naquela instituição, atuou como operador de fotocopiadora e auxiliar de almoxarifado. Pouco tempo depois, fez treinamento de arquivista pela Fundação do Estado de São Paulo (Fundap) e passou a lidar com manutenção, catalogação e publicação.

"Quando o grupo encontrava documentos a respeito da morte de gente conhecida, a reação dos técnicos era semelhante a dor da perda de um ente querido", recorda Aristides, acrescentando que "o incômodo causado pelos relatos de torturas era além da conta e, por sua vez, sensibilizava a todos que liam os autos dos processos recolhidos". As próprias viagens, feitas à noite, agravavam o clima de insegurança entre os técnicos. Mas, faziam assim, por motivos relacionados à manutenção da história, da dignidade humana e da própria sobrevivência, justifica o pesquisador.

Os integrantes da comissão, segundo Aristides, misturavam-se a multidão, não falavam sobre o assunto e quando entravam no lugar indicado, fechavam as entradas. Assim, seriam poupados de perseguição.

DESCOBERTAS
Pesquisa perigosa marcada pelo medo

Crato A pesquisa foi iniciada no Instituto Médico Legal (IML) onde conheceram os livros com registros das causas das mortes e de suas diversas naturezas (atropelamentos, assassinatos, mortes naturais e os dos presos políticos, das torturas etc). Em seguida, o grupo passou a trabalhar condições mais desagradáveis, já que havia material escondido em sótão, porão, poço, no meio do mato, entre paredes. Para salvar alguns pertences de Júlio Prestes, escondidos em uma fazenda de Itapetininga, Aristides Neto arriscou-se. Teve que descer num poço que mal lhe cabia.

No fundo do poço, o técnico encontrou sacolas de documentos que a família do político jogara para salvá-los do regime. Junto às sacolas, havia rato, lacraia, barata, papel podre e muita umidade. Em seguida, colocou os papéis em um saco e o mandou para fora do poço. Outra equipe encarregou-se de secar e limpar os papéis que seriam aproveitados, inventariados e contextualizados.

Os bens de Caio Prado reavidos pelo "grupo técnico" foram, na grande maioria, livros de autores contestadores (comunistas), muitos dos quais, proibidos pelos militares de então, que os confiscavam e queimavam aos montes. Para a família de Sérgio Buarque foram reavidos muitos livros, textos políticos, dentre outros. Ana Maria era filha de um ativista da Revolução Constitucionalista de 1932, que teria a sua coleção de folhetins restaurada, catalogada e divulgada por ocasião dos 50 anos de revolução. No acervo dela, localizou-se outra raridade, a carta de despedida escrita por Santos Dumont. Porém, o importante no resgate é o caráter investigativo que, para todo efeito, deve ficar por trás do resultado apresentado.

A relação de Aristides com Geraldo Vandré é marcante. Na vida do técnico, a música sempre foi como um remédio. Associado ao espírito investigativo, a paixão por música o levou ao artista torturado e anunciado como louco pelos militares. "Um dia encontrei com Vandré, conversamos e nós ficamos muito amigos. E ajudei a fazer a recuperação das obras dele.


Opinião do especialista
Identidade local e resistência popular


Os aspectos jurídicos e historiográficos aqui ressaltados fortalecem a identidade local e a resistência popular frente à habitual impunidade brasileira. Tal procedimento evitaria o ressurgimento de novas ditaduras, em um País que não abriu os arquivos do regime militar ainda. Nem tão pouco, ousou levar a julgamento os acusados de tortura contra milhares de políticos, estudantes, jornalistas, sindicalistas etc. Vítimas de instrumentos como pau-de-arara, choques elétricos, "pimentinha" e dobradores de tensão, afogamento e outros mais. As memórias dos presos políticos e de cidadãos como Aristides ensina-nos muito. Ensina a reavaliar nossas trajetórias, a nos posicionarmos diante das situações e a planejarmos melhor o futuro desejado. Cabem aos arquivistas, historiadores, jornalistas, artistas e educadores, a difícil tarefa de conscientizar as novas gerações e evitar a volta de experiências totalitárias, desumanas e degradantes. Só uma sociedade autoritária e violenta, com um modelo educacional sucateado, poderia negar, a tais profissionais, uma posição digna de destaque. Os arquivos públicos que revelam a história da ditadura brasileira, serão abertos à população dentre poucos meses. "Os 64 mil processos recebidos pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, vão compor o acervo do Memorial da Anistia Política", afirmou o boletim.

Eldinho Pereira da Silva
Professor e pesquisador

Antônio Vicelmo
Repórter
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