terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Defasagem na educação

Dom Aldo Di Cillo Pagotto

Arcebispo Metropolitano da Paraíba

Nas últimas três ou quatro décadas a política educacional brasileira apresenta resultados pífios, comparada às nações emergentes, cujo avanço científico e tecnológico é fundamental para o próprio desenvolvimento sócio-econômico. Na teoria, os referenciais de educação básica (vide Lei de Diretrizes e Bases) prima pela excelência. Na prática, porém, a realidade das últimas décadas registra a ausência de investimentos substanciais para a sua consubstanciação. Consequentemente, os resultados, além de pífios, são considerados insuficientes para uma avaliação séria.
A triste conclusão de que os resultados são insuficientes para uma avaliação realista deve-se a falta de garantia de recursos financeiros. Não foram prioridades a qualificação de professores e de alunos, material didático, construção e reforma dos prédios, criação de laboratórios, pesquisas de campo, enfim, de infraestrutura indispensável.
O processo educacional brasileiro foi nivelado por baixo. Pouco se trabalha com metas e resultados. Milhares de adolescentes “vão pra frente” sem dominar as quatro operações aritméticas. O mesmo se verifica na escrita, na leitura, na interpretação de textos num nível elementar. Muitos alunos não conseguem “se ligar”, nem acompanhar a trajetória lógica de um raciocínio elaborado, por um espaço de tempo razoável. O papo é outro.
A avaliação de resultados do processo de ensino, aprendizado e habilidades, “não bate” com as referências fundamentais dos parâmetros curriculares. O que os professores ou diretores de escolas podem fazer se o aluno “tem que ir pra frente de qualquer jeito”? Não se permite que o aluno fique traumatizado se tomar bomba ou talvez desista da escola.
Que futuro terá a geração nova “indo pra frente de qualquer jeito”? Para onde vão milhares de adolescentes e jovens despreparados, sequer para serviços de necessidade básica que, porém, hoje exigem qualificação? Para piorar, também na escola avança o fator droga e violência (bullying) de forma deletéria. Alunos agridem professores, colegas e até os pais.
Nos novos referenciais da sociedade, com novos arranjos familiares, os pais (ou algum responsável) não conseguem orientar os próprios filhos. Sentem-se desmoralizados e são agredidos da mesma forma. Outros “não estão nem aí” para os filhos. Como recuperar décadas perdidas com danos irreparáveis? Um prognóstico realista requer planejamento de metas objetivas, resultados concretos, investimentos assegurados.
O pronunciamento oficial da presidente Dilma (10/02 pp.) resume-se num lema: “País rico é país sem pobreza”. De fato, para erradicar a miséria o caminho é a educação incluindo-se, pois, a profissionalizante. Trata-se de criar condições e oportunidades de estudo e trabalho para as pessoas de classes empobrecidas. Trata-se de investir oportunamente na qualificação das pessoas, não apenas “dar alguma coisa”.
Segundo o IPEA, 10% da população mais rica detêm 75,4% de todas as riquezas. O imperativo ético da superação do empobrecimento do povo brasileiro não é casual. É provocado. O desenvolvimento humano do povo é o foco do qual não podemos nos desviar! Os valores éticos devem estar presentes, pois são referenciais de uma nação livre, soberana, democrática, participativa.
O resgate da cidadania exige a criação de condições e a distribuição de oportunidades de formação humana. Estudo e trabalho geram riqueza e partilha, superando a miséria moral e material. A superação da miséria é proporcional à oferta de oportunidades de inclusão e justiça social.
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