sexta-feira, 20 de maio de 2011

A força da brisa

Enquanto o número de parques eólicos dotados de grandes máquinas se multiplica no país, fabricantes de pequenos aerogeradores chamam atenção para o setor que, aqui, ainda não decolou

Por Clarice Couto
Reprodução Internet

De tanto ser tema de debates nos meios de comunicação, a energia eólica – gerada a partir da força do vento – já soa menos exótica. Deixou de ser a energia dos países desenvolvidos para ganhar popularidade também no Brasil. Quem viaja à região Nordeste tem a possibilidade de observar os gigantes e brancos aerogeradores – máquinas parecidas com moinhos de vento – em meio às dunas. Na outra ponta do país, um dos maiores parques eólicos brasileiros faz parte da paisagem do município de Osório, RS. Há, porém, uma indústria complementar à das grandes turbinas que desempenha um trabalho de “formiguinha”: a dos aerogeradores de pequeno porte, com menor capacidade de geração de eletricidade e destinados a clientes de perfis diversos, como donos de embarcações, propriedades rurais, pequenas e grandes indústrias. A maioria deles opta pela energia eólica por não ter acesso à rede nacional de distribuição de energia elétrica.

Um e outro segmento têm a meta comum de disseminar o uso de energia limpa pelo país. E ambos compartilham boas notícias. Tanto dentro como fora do país, a energia dos ventos produzida por máquinas pequenas repete o bom desempenho de seus pares “grandalhões”. Nos Estados Unidos, o mercado de pequenos aerogeradores vive um momento de franca expansão. Cresceu 15% de 2008 para 2009 e, no ano anterior, antes da crise econômica mundial, havia alcançado alta de 53% em relação a 2007. Mais da metade de todos os aerogeradores de pequeno porte comercializados no mundo foi vendida no país do hemisfério norte. Não por acaso, a agência internacional de energia eólica projeta um aumento espetacular da capacidade instalada de máquinas desse tamanho nos Estados Unidos: dos 100 MW já existentes em 2009 para 1.700 MW daqui a dois anos.

No Brasil, não há dados oficiais disponíveis que apontem aumento do número de aerogeradores comercializados. De acordo com o Centro de Energia Eólica (CE-Eólica) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), já na década de 1950 aerogeradores de baixa potência eram comercializados no estado e em outras localidades rurais do Brasil. Mas empresas do setor dão conta de que os bons ventos que sopram sobre os grandes fabricantes também têm chegado aos pequenos. A Eletrovento, de Campinas, SP, passou para o controle da empresa Everest, de Mairinque, SP, em fevereiro. Já a carioca Enersud passou a receber telefonemas de interessados com maior freqüência. “Estamos sentindo a volta das consultas de pessoas interessadas, inclusive gente de fora do país. Quanto mais à vista da população, mais interesse os aerogeradores geram”, afirma Luiz Cezar Sampaio Pereira, fundador da empresa.

A Enersud foi uma das pioneiras a acreditar no negócio da “brisa”. Pereira, que criou a companhia em 1996, trabalhou por 35 anos como funcionário da Petrobrás. Seu último desafio antes da aposentadoria foi encarar o cargo de superintendente da refinaria de petróleo de Duque de Caxias, RJ. “Egresso” da energia fóssil, ele encontrou nas limpas a inspiração para empreender em sua fase “pós-carreira”. Após um projeto de gerador elétrico destinado a pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), usinas térmicas pequenas e eólicas, Pereira chegou a seu primeiro modelo de aerogerador, instalado em regime de teste em 2001, com capacidade para gerar 700 watts (energia inferior à consumida por uma residência). Depois, foram lançados equipamentos maiores e menores, de aplicações distintas. Aerogeradores de 300 watts eram procurados por proprietários de embarcações e veleiros ou por empresas de telecomunicação com torres em zonas rurais. Os de 1.000 watts (capazes de abastecer uma residência) tinham como destino as pequenas e médias propriedades ou empresas.


Reprodução Internet
Aerogerador vertical, próprio para áreas urbanas, mas pouco empregado no Brasil

“O produto visa especificamente quem não conta com energia elétrica da rede de distribuição”, diz Pereira. A máquina de 1 quilowatt foi por anos o carro-chefe da empresa, que já comercializou mais de 300 aerogeradores deste porte para todo o Brasil. O modelo mais novo tem capacidade para gerar 6 quilowatts, suficientes para cerca de quatro casas. Também vem sendo testada uma máquina de 12 quilowatts.

As normas internacionais definem como equipamentos de pequeno porte aqueles com potência em torno de 50 quilowatts, mas os fabricantes incluem na categoria máquinas de até 100 quilowatts. “Para uso residencial, equipamentos de 1 a 10 quilowatts são os mais utilizados”, afirma o professor Jorge Antonio Villar Alé, coordenador do CE-Eólica. Para estabelecimentos comerciais, são empregados aerogeradores de 20 a 100 quilowatts.

A Enersud fabrica os modelos mais conhecidos de aerogeradores, dotados de três pás, conhecidos como “horizontais”. Este tipo de máquina é indicado principalmente para aéreas rurais. Mas há outro equipamento indicado especialmente para as zonas urbanas: os aerogeradores verticais. “Temos conhecimento de projetos de desenvolvimento e teste de protótipos deste modelo. Mas eles ainda não são comercializados”, diz Alé.

A maior parte dos clientes da Enersud instala os equipamentos sem conectá-los à rede local, recorrendo a baterias disponíveis no mercado para armazenar a energia gerada pelos aerogeradores. “Algumas distribuidoras, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, têm permitido a conexão com a rede. Quanto mais à vista da população, mais interesse os aerogeradores geram”, diz Pereira.
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