sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Linguagem da natureza

Dom Genival Saraiva

Bispo de Palmares - PE

Desde os primórdios ao momento presente, a natureza fala de muitas maneiras à humanidade. Isso acontece quando se vislumbra a realidade macrocósmica, como ocorre, atualmente, com as investigações da astronomia no sistema planetário, e quando se constata essa realidade num organismo individual. É sempre muito fascinante o olhar sobre a natureza, naquela face que deixa grandes interrogações à inteligência humana e naquela que, embora conhecida, não deixa de falar, mesmo sendo lugar comum. Na verdade, não há como a inteligência não se deslumbrar diante da complexidade da natureza, não como não se curvar diante da sua obviedade.
Reconhecidamente, as coisas grandiosas e raras chamam mais a atenção, enquanto as cotidianas passam despercebidas, embora também tenham sua significação. Na literatura eclesiástica, essa leitura é feita com saborosa singeleza, como se pode constatar em dois textos. Ao comentar a obra Diatéssaron, de Taciano (séc. II), Santo Efrém (séc. IV) escreve: “A palavra de Deus é a árvore da vida a oferecer-te por todos os lados o fruto abençoado, à semelhança do rochedo fendido no deserto que, por todo lado, jorrou a bebida espiritual. (...) O sedento enche-se de gozo ao beber e não se aborrece por não poder esgotar a fonte. Vença a fonte a tua sede, mas não vença a tua sede a fonte. Pois, se tua sede se sacia sem que a fonte se esgote, quando estiveres novamente sedento, dela poderás beber. Se, porém, saciada tua sede também se secasse a fonte, tua vitória redundaria em mal.” Quanto ensinamento, quanta verdade em afirmações tão simples e tão óbvias. A natureza se encarrega de revelar a cada pessoa o grau de saciedade em relação a uma coisa tão corriqueira quanto beber água. O bom senso vai também falar à pessoa saciada, no tocante à necessidade de preservar a fonte, porque logo mais precisará procurá-la, para “matar a sede”. A água é um bem que deve ser objeto dos melhores cuidados por parte da população e dos governantes. Hoje, em muitos lugares, a fonte de onde jorra a água do consumo da população está sendo esgotada por suas agressões, através de fatores como o desmatamento e a poluição ambiental. A sabedoria popular revela que, em relação a essa matéria e a muitas coisas, as pessoas e as empresas erram porque vão “com muita sede ao poço” de seus interesses e de sua ganância, daí a falta ou a diminuição da água, em muitas regiões e cidades.
Por sua vez, São Bernardo (séc. XII), ao discorrer sobre a sabedoria, compara-a ao mel. “Na verdade, se encontraste a sabedoria, encontraste o mel. Não comas demasiado, para que, saciado, não o vomites. Come de modo a sempre teres fome. (...) Não te sacies para que não vomites e te seja retirado aquilo que pareces possuir, por teres desistido de procurar antes do tempo.” Em relação ao alimento, a natureza também fala, através do limite identificado pelo estômago. Com efeito, por melhor que seja o alimento, há sempre um limite no seu consumo. Nesse ponto, há um paradoxo na sociedade: muitos vão ao spar para emagrecer, enquanto outros vivem com estômago vazio, permanentemente.
O carnaval destes dias será um termômetro para leitura do comportamento humano. Segundo a natureza física e social, quem falará mais: o equilíbrio ou excesso no ato de beber e comer? o bom senso ou a extravagância no modo de conviver e de se divertir?
Fonte: www.cnbb.org.br
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