domingo, 1 de julho de 2012

A TRISTE SINA DOS NORDESTINOS

O sertanejo




_ Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Que vida é essa? O que vou fazer agora?
Gritava com lágrimas escorrendo pelo rosto, Domingues, no meio de uma roça de milho e feijão totalmente secos por falta de chuva. Mas quem se importaria com isso! Era apenas mais um flagelado da terrível seca que castigava o povo simples do nordeste, uma nação esquecida pelos governantes, lembrados apenas em época de eleições.
Vendo uma cena daquela, como não chorar junto! Um homem desfigurado, maltrapilho, sem esperança de vida com apenas trinta anos de idade, e aparentando ter quarenta. Via-se nos seus gestos, o desespero, a revolta, e a vergonha de ver em volta de si, dois filhos que ao vê-lo em tal situação mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, choravam junto ao pai. Nascido na cidade em uma pequena cidade do  interior do Ceará,  uma das terras  rica em  pedra calcária, porém toda renda fica nas mãos dos fazendeiros e políticos que escravizam os pobres. Domingues era apenas mais um. Ele como todos os sertanejos tinha como companheiro inseparável um chapéu de palha, para proteger-se do sol escaldante, que no nordeste parece nascer antes que nas outras regiões do país e se pôr mais tarde, talvez apenas para castigar um pouco mais aquele povo sofrido. Ainda outro amigo, um cachorro vira lata, tão magro que dava para contar as costelas, mas que de forma nenhuma o  abandonava.
Sem nada em casa para comer. O homem começou  escavar a terra seca entre uma pedra e outra  tentando encontrar alguma batata de inhame bravo, para ver se de alguma forma matava a fome deles, principalmente das crianças que enfraquecia de fome a cada dia.  A mulher desesperada esperava o marido, sofrendo antecipado a dor que sentiria quando os filhos chegassem com o pai, sem ter o que comer.
Às vezes  choravam ouvindo a barriga roncar e as tripas dando nós por estarem vazias até adormecerem. Sem saber de onde tirar algo que pudesse enganar o estômago os pais também choravam escondidos.
Tudo que Domingues tinha, dezoito litros de feijão, e trinta e seis litros de milho, estocados em latas de querosene (para o sertanejo, os grãos  muitas vezes são calculados por litros ao em vez de kilos) agora já não mais existiam porque estavam debaixo da terra, à pequena lavoura que mal nascera  já estava morta por falta de chuva.
Normalmente o inverno cearense inicia-se entre os meses de dezembro e janeiro quando o mais tardar fevereiro, nos anos em que há inverno. Os sertanejos têm uma experiência, segundo os mais velhos, não falha. Esperam o inverno até o dia dezenove de março, dia de São José, o padroeiro do Ceará, chegando este dia e não chover, todos perdem a  esperança de inverno no respectivo ano.
Por isso o grande desespero de Domingues Barros, que o deixava inquieto e apreensivo. Era  vinte  e cinco de março e nada de chuva, não lhe restava alternativa, a  não ser apelar aos políticos da cidade, tentar uma ajuda para conseguir o que comer ou algumas migalhas de grãos dos próprios armazéns deles que sempre estavam lotados enquanto os pobres morriam de barriga vazia. Não tinha outra saída, teria que passar pela humilhação de pedir.
Deixaram as crianças em casa,  Domingues saiu para um lado, à mulher Severina para outro. Domingues foi à casa de um vereador. Severina  tentou a casa do prefeito, falar com a esposa dele, talvez  ela que tinha fama de ter bom coração se compadece deles ao menos  pelas crianças. Infelizmente  não era apenas Domingues naquela situação, todos os dias aquela cena se repetia com outras pessoas em flagelo semelhante ou piore.
Domingues foi à casa dos dez vereadores, bateu de porta em porta, nenhum  deles estavam em casa, segundo os empregados, quase nas mesmas condições, a única diferença,  um salário de duzentos reais por mês prestando serviços na casa dos políticos, até mesmo alguns serviços sujos, coisa que normal entre eles.  A dignidade de Domingues não o permitia fazer isso. Um falou que o patrão estava na câmara, porém o sertanejo sabia que era mentira, havia passado lá antes, estava fechada. Outro, mais um mentiroso: “seu Lourenço (o presidente da câmara) foi prá fazenda”, claro, outra mentira, a pick up na garagem denunciava a falsa desculpa o maldito sempre ia à fazenda  no carro. Domingues revoltado voltou para casa. A mulher também não encontrou a primeira dama, tinha ido visitar uma creche, segundo a empregada, sendo que todos sabiam, a tal creche permanecia fechada há meses por falta de merenda para as crianças. Enquanto voltava para casa o infeliz matutava na vida: “já não basta à vergonha de ter que pedir, ainda tenho que ficar ouvindo todas esta mentiras”.
Sua fisionomia era indescritível, tristeza, revolta, raiva, vergonha, como descrever tudo isso em uma só pessoa! Cabisbaixo chapéu de palha na cabeça, usando uma camisa tão velha  que era possível ver o corpo magro desprovido de músculos, uma calça totalmente aos farrapos, passos desengonçado.
Um homem rico em dignidade, mas isso não enche barriga de ninguém. A mulher já nem conseguia pensar, tremendo de fome,  angustiada bem sabia que ao chegar em casa, os filhos estariam esperando-a semelhantes a filhotes de pássaros piando dentro de um ninho com os bicos abertos ao aguardo de que  a mãe trouxesse-lhes algo para vomitá-los a boca.
Ambos chegaram a casa. Uma  das crianças, Cassiana, de seis anos  falou: “Mamãe tô cum fome”. A mãe, com um olhar de heroína que após vencer muitas batalhas, exausta e ferida, suplica por ajuda sem força para se mover, nem olhava para a filha, somente para o chão,  respondeu a menina: “Toma um pouco de água filha, a fome passa”. Mas que água tomaria aquela  inocente, se a única coisa que tinha em um pote de barro, com um pano na boca era  uma lama salobra, tirada de uma cacimba feita no meio do rio que há muito tempo havia secado.
O  outro mais novo, um molequinho de cinco anos, magricelo, cabelos arrepiados queimados do sol, barriga grande, cheia de vermes, pescoço fino, boca murcha e de pés no chão, murmurou ao pai: “Papai, o sinhô num comprou cumida”? O pai abraçou o filho e chorou. Como explicar para o filho que não tinha comida? De que forma faria uma criança entender o que estava acontecendo?
Naquele desespero, apareceu uma alma caridosa, seu Antonio Moreira, casado com a senhora Joventina Moreira, vizinhos e velhos amigos aposentados. Com um pouco de feijão, arroz, e um frango cozido. Foi uma festa, pelo menos naquela noite, não dormiriam de barriga vazia, e para o futuro só Deus saberia.
Impossível  continuar naquela situação, sem chuva, e a espera de uma ajuda, migalhas distribuídas, ou melhor, negociadas por políticos em trocas de votos.   Urubus, engordando com a morte dos outros. Carniceiros sem escrúpulos, verdadeiros  animais no poder, fazendo de homens, mulheres e crianças escravos da miséria.
Não havia outra saída, morrer de fome juntamente com a família, ou  deixar a terra natal em rumo às metrópoles  da região sudeste, Rio de Janeiro,  São Paulo, cidades pioneiras em receber imigrantes do nordeste.  Mas apesar de toda pobreza, Domingues, continuava centrado em suas idéias, e pensava consigo: “cuma eu um analfabeto, sem conhecer nada, posso viver num lugar que nem cunheço”. E o pior, ainda teria que pedir o dinheiro da passagem aos políticos, à única ajuda que eles costumavam dá aos que pedisse loucos para se livrar do problema. O tempo passando,  nada de chuva, o desespero aumentava.   A cabeça de Domingues cada vez mais confusa,  uma grande tristeza tomava conta dele consumindo seu espírito, e já desfigurada alma da mulher.
Extremamente dividido, para ele era morrer ou morrer. Poderia ficar e morrer de fome, vergonha e tristeza ao lado da família, ou pedir a algum político o valor referente à passagem para São  Paulo, e quem sabe morrer de saudades longe da família. Isso, se  não morresse de fome mesmo, virando mendigo, debaixo de pontes e viadutos no frio e  garoa de São Paulo, o fim de muitos nordestinos. Demonstrado ser forte, mas chorando por dentro Domingues resolveu falar com a mulher sobre o assunto:
_ Minha véia, deste jeito num tem cuma cuntinuar, a gente vai morrer de fome eu preciso fazer alguma coisa, o que você acha se ou for prá São Paulo?
Severina respondeu:
_ Ô meu véio, num faça uma coisa dessa, você num conhece ninguém lá, num tem  prá onde ir, o que você vai fazer num lugar desse? Vai morrer por lá sozinho, vamo ficar aqui, Deus dá um jeito, num vai deixar a gente morrer de fome não, e se morrer pelo meno, a gente morre junto.
Por outro lado Domingues, já com a decisão tomada disse:
_ Tudo bem minha véia, vamo vê, Deus proverá.
E sem que a mulher soubesse o seu verdadeiro plano, no outro dia cedinho já com tudo planejado, resolveu ir falar com o prefeito Doutor Joaquim Bezerra, além de prefeito  e médico era o mais rico fazendeiro da cidade.
Um infeliz ladrão que desviava  a merenda que o governo concedia as escolas,  para distribuir   na época das eleições em troca de votos, apesar de ser proibido, mas quem respeita a lei no nosso país?
A miséria era tão grande, que os bravos sertanejos acostumados a pegar no pesado trabalhando na roça de sol a sol, desmatando, arrancando tocos, quebrando pedras etc.  Trocavam seus votos por cestas básicas, roupas, até mesmo por  um par de chinelos.
Foi até a prefeitura, a fim de falar com o prefeito. Ninguém permitia que ele entrasse. Ficou esperando até a hora do almoço, sabia que mais cedo ou mais tarde ele apareceria e ninguém o impediria de falar com o desgraçado. Sua decisão estava tomada, e não voltaria atrás. Às  quatorze horas, a barriga pregada nas costas de tanta fome, até que em fim apareceu o todo poderoso. Domingues tentou falar com ele, mas tentaram impedi-lo, insistiu até que o prefeito falou: “deixem o vir, vamos ver o que este louco está querendo”. O homem se aproximou e envergonhado disse:
_ Sinhô prefeito o que quero é muito simples, uma passagem para São Paulo, num dá mais prá ficar por aqui, minha família está a ponto de morrer de fome, preciso fazer alguma coisa, o sinhô pode me arrumar? Sem toscanejar respondeu o Prefeito:
- claro quanto custa?
Duzentos e cinquenta reais Sinhô. Respondeu.
O prefeito colocou a mão no bolso, tirou trezentos reais, entregou para Domingues como se tivesse feito a melhor coisa da vida, ainda acrescentou dizendo:
Tome cinquenta a mais para comer um lanche no caminho.
Muito agradecido sinhô, falou Domingues, e voltou para casa. Quando  chegou teve uma longa e triste conversa com a esposa:
_ Minha véia, amanhã eu vou ver a roça pela ultima vez, antes de viajar, mas vou deixar o dinheiro debaixo do colchão, se por acaso acontecer alguma coisa você pode usar, compre comida prá você e as crianças. Domingues tinha tudo planejado.
A mulher respondeu:
_ Ô meu véio, num vai acontecer nada com osê  home de Deus, deixe de besteira.
Tudo pronto. O sertanejo nem dormiu direito, pensando no plano, na mulher, e nas crianças, quase desistiu.  O dia amanheceu. O sol banhava de luz as serras cobertas de uma vegetação cinza.
Não se via uma folha verde, era uma tristeza inexplicável, parecia que a própria flora chorava, lamentando a falta de chuva, urubus voavam no céu azul procurando do alto algum animal morto pela fome entre as árvores peladas sem folhas. Domingues beijou as crianças, abraçou a mulher, e com os olhos cheios de lágrimas saiu.
Deus te acompanhe meu véio. Gritou a esposa em pé na porta. Chegou na roça, ao ver  a lavoura morta, passava na mente à imagem dos filhos chorando pedindo comida, a vergonha de ter que pedir para não morrer de fome. Ele  sabia, se viajasse para São Paulo morreria do mesmo modo, com saudade longe da família,  nunca havia se separado dela. Estava decidido, e sertanejo que é sertanejo nunca volta atrás sua palavra, mesmo sendo apenas por pensamento. Daquele jeito não tinha como continuar. Ajoelho-se, levantou os olhos aos céus, pediu perdão a Deus, fez o sinal da cruz e  se enforcou, com um cipó, debaixo de uma árvore morta no meio da roça, e como testemunha assistindo tudo sentado sobre as pernas o seu fiel escudeiro latindo como se tivesse clamando: “não faça isso... não faça isso...”.




Francis Gomes
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