quarta-feira, 6 de março de 2013

Apoiadores de Chávez vão às ruas de Caracas


A manifestação atendeu ao pedido de Maduro, que convocou homenagens ao presidente Chávez
Caracas. Apoiadores de Hugo Chávez se reuniram ontem na capital Caracas em manifestações em homenagem ao presidente venezuelano, que morreu ontem, vítima de um câncer na região pélvica.


Os manifestantes se dividiram entre as lágrimas de luto pela morte de Chávez e a revolta ao afirmar que não permitirão "o retorno da direita" ou a radicalização no "processo revolucionário" FOTO: REUTERS

Na Praça Bolívar, chavistas gritavam frases como "todos somos Chávez" e "todos com Maduro", em referência ao vice-presidente, Nicolás Maduro, tido como herdeiro do mandatário. As imagens divulgadas pelo jornal venezuelano "El Universal" mostram dezenas de apoiadores, de todas as idades, gritando para as câmeras presentes no local.

A manifestação atendeu ao pedido de Maduro, que convocou homenagens ao presidente em todas as praças Bolívar (Simon Bolívar é herói da independência do país).

Segundo o "El Universal", os manifestantes se dividem entre as lágrimas de luto pela morte de Chávez e a revolta ao afirmar que não permitirão "o retorno da direita" ou a "radicalização do processo revolucionário" no país. Apoiadores se reuniram também diante do Palácio Miraflores, sede do governo, pouco após o anúncio da morte. Imagens exibidas pelo jornal venezuelano mostram dezenas de chavistas do lado de uma rua movimentada. Um deles estava com um alto falante, gritando frases favoráveis ao mandatário.

Com a comoção causada na capital, moradores de cidades próximas relataram dificuldades para conseguir ônibus para voltar para casa. Segundo os passageiros, as filas eram longas e os ônibus demoravam até uma hora para passar nos terminais da capital rumo a cidades como Guarenas, Guatire, La Guaira e Altos Mirandinos.

Diante da mobilização causada pela morte de Chávez, o chefe de comando estratégico operacional das Forças Armadas da Venezuela, o major general Wilmer Barrientos, afirmou que há plena normalidade no país. "Estamos monitorando todo o país, nossos mares e até agora tudo caminha com normalidade".

Petróleo
Em quase 14 anos no poder, Chávez usou o dinheiro do petróleo e a determinação de construir alianças alternativas aos EUA para inscrever a Venezuela no mapa geopolítico regional e, em certa medida, mundial. A intenção dele era recuperar os ideais integracionistas de seu herói, Simón Bolívar (1783-1830).

O desaparecimento de Chávez e o cenário de novas eleições no país no curto ou médio prazo lançam incertezas sobre elos estratégicos construídos pelo esquerdista, especialmente sobre a permanência da aliança com o regime comunista de Cuba, a quem o venezuelano deu sobrevida econômica.

Para Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela, a radicalidade comedida de Chávez no plano econômico e o desaparecimento da Guerra Fria permitiram "acomodação" entre Washington e Caracas no século XXI, especialmente sob a gestão de Barack Obama.

Venezuela viverá um ´novo capítulo´

Barack Obama disse que os Estados Unidos reafirmam o interesse de desenvolver uma relação construtiva com o governo venezuelano FOTO: REUTERS
Washington. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se pronunciou publicamente, ontem, apoiando o povo venezuelano no que chamou de um "novo capítulo" que se abre agora com a morte de Hugo Chávez, disse a Casa Branca.

"Neste momento chave após a morte do presidente Chávez, os Estados Unidos reafirmam todo seu apoio ao povo venezuelano", afirmou o presidente.

Ainda conforme Obama, os Estados Unidos compactuaram, assim, compromisso com as políticas que promovam os princípios democráticos, Estado de Direito e respeito pelos direitos humanos. "Os Estados Unidos reafirmam seu interesse em desenvolver uma relação construtiva com o governo venezuelano", disse Obama horas após Caracas expulsar do país dois adidos militares da embaixada americana.

Ontem, o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter afirmou que Chávez "será lembrado por sua afirmação ousada de autonomia e independência para os governos latino-americanos". "Nós conhecemos um homem que expressou uma visão para trazer profundas mudanças em seu país para beneficiar especialmente as pessoas que se sentiram negligenciadas e marginalizadas", escreveu Carter em um comunicado.

Críticas

Em meio a tantas polêmicas em torno do legado deixado pelo venezuelano, políticos republicanos comemoraram nos EUA a morte daquele que chamaram de ´tirano´. Membros do partido republicano na Câmara dos Representantes expressaram publicamente, ontem, satisfação com o falecimento do líder.

"Ele era um tirano que forçava venezuelanos a viver no medo. Sua morte é um golpe para a aliança dos dirigentes de esquerda e antiamericanos da América do Sul", declarou Ed Royce, presidente da comissão de Relações Exteriores da Câmara de Representantes.

"Sua morte marca o fim do seu poder tirânico, mas o caminho da democracia ainda está muito incerto na Venezuela", comentou Ileana Ros-Lehtinen, republicana de origem cubana eleita pela Flórida e que apoia políticas inflexíveis contra Cuba e seus aliados.

Maduro convoca eleições

Caracas.
O vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, assume a presidência da Venezuela após a morte de Hugo Chávez, e convocará eleições "nos próximos 30 dias", informou o chanceler Elías Jaua.


Maduro assume a presidência e vai convocar as eleições para 30 dias. A oposição vai escolher seu candidato. Capriles (à direita) está na disputa FOTO: REUTERS
"Agora que se produziu a vacância absoluta, assume o vice-presidente da República como presidente e se convoca eleições nos próximos 30 dias. Estas foram as ordens do comandante presidente Hugo Chávez", disse Jaua à TV estatal Telesur.

Muitos venezuelanos acreditam que o verdadeiro objetivo de Hugo Chávez em sua última cadena (como são chamados os pronunciamentos em rede nacional de rádio e TV na Venezuela), em 8 de dezembro, foi anunciar ao país o nome do homem escolhido por ele para ser seu sucessor. Após meses de especulações e disputas internas, defendeu, enfaticamente, a candidatura de seu vice, Nicolás Maduro, em futuras eleições presidenciais.

Em tom dramático, o presidente assegurou que seu respaldo a Maduro era "firme, pleno como a lua cheia, irrevogável, absoluto e total".

Nos últimos três meses, período em que Chávez não fez aparições, coube a Maduro a tarefa de transmitir boletins sobre a saúde do governante e preparar a população, sempre em cadenas, instando os venezuelanos a rezar pela saúde do presidente.

Durante a ausência de Chávez, Maduro foi um dos principais defensores da tese da continuidade - de Constituição em punho, chamou a posse de "formalismo".

De outro lado, a oposição tem agora uma nova chance. Em outubro, a coalizão de forças opositoras conquistou seu melhor resultado nas urnas na era Chávez, com os votos de 44,3% dos eleitores, que defendem uma alternativa ao chavismo no poder. Nos últimos dias, alguns representantes da oposição anunciaram que já se reuniam para escolher o seu candidato.

O líder da oposição, Henrique Capriles, pediu unidade dos venezuelanos. O principal desafio dos opositores é encontrar o delicado equilíbrio entre os preparativos para novas eleições e evitar que o projeto político do chavismo se estenda além de Chávez.
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