quarta-feira, 15 de abril de 2009

Seu ZÉ MOURA - PASTOR DAS COISAS INTANGÍVEIS.



Filho de Francisco Alexandre de Moura e da Maria Romana de Moura, nascido no dia 23 de junho de 1922, no Sítio Umari Torto, no município de Cedro, recebeu, na pia batismal, o nome de José Alexandre de Moura.

A vida do pequeno José seria marcada por grandes dificuldades e sofrimentos. O sonho da escola foi logo trocado pela dura realidade da roça. Trabalha quotidianamente no cultivo do arroz, nas vazantes dos açudes, nas frias madrugadas sertanejas. As condições adversas dessa labuta o levou a contrair uma doença reumática que o deixaria paralisado durante anos. Diante dessa realidade, surgiu na alma do jovem Zé Moura uma decisão que marcaria toda sua trajetória existencial: se a vida parecia absurda e sem sentido, resolveu aquele jovem dar-lhe significado. Logo que recomeçou a andar, já palmilhava as veredas do mundo trabalhando nas frentes de serviços, durante as grandes secas, para se manter e também ajudar os seus pais.

Viajou pelo Ceará, Piauí e Maranhão, abrindo estradas nos sertões hostis e ressequidos, construindo açudes nos grotões das serras mais incultas, convivendo com toda sorte de perigos e privações. Autodidata, lia os poucos livros, jornais e revistas que lhe chegavam às mãos, à luz das lamparinas, nos acampamentos improvisados, em latadas de oiticicas e marmeleiros. Do Piauí, ele chegou a Farias Brito, no final da década de 40, época em que conheceu Anita, singela e delicada flor, a beleza mais suave daquele lugar. Casaram-se, e desse casamento nasceram: Jurema, Tibério César (que se encantou em “anjo” com apenas um ano), Rosemberg, Rita de Cássia e Juruena.

A vida desse homem simples do sertão, naquele período, adquiriu talvez o seu sentido mais profundo: resolveu dedicar-se integralmente à educação dos filhos e semear sua bondade com o próximo. Na grande seca de 1958, Zé Moura, com a família, em cima de um caminhão, deixou a cidade de Farias Brito e foi morar no Cedro, reencontrando seus pais, irmãos e parentes.

Trabalhador incansável e empreendedor, Seu Zé Moura se estabeleceu com um pequeno comércio e uma oficina de ferreiro. Em 1964, veio uma grande invernada, e as águas levaram para o mar o pouco que esse homem colhera, depois de décadas e décadas de trabalho. As águas empurram-no agora para o Crato, para as paisagens mágicas e verdejantes do Cariri. Com ajuda do sogro, Manuel Pereira, reconstruiu, pouco a pouco, o que perdera. Passou a trabalhar na gerência de um posto de gasolina e conseguiu, por fim, montar mais uma vez, uma pequena mercearia e sorveteria, na subida da ladeira do seminário. Esse local se transformaria em ponto de encontro de muitos artistas tradicionais e figuras populares da região, que sempre encontravam em seu Zé Moura o conselho fraterno, o socorro para as pequenas dificuldades, a amizade mais sincera. Entre os seus amigos, Patativa do Assaré, Cego Oliveira, Dona Ciça do Barro Cru, Cego Heleno, Vitório, Zé Gato e tantos outros mestres da cultura popular que os seus filhos aprenderiam a admirar. Figura popular e querida, seu Zé Moura, irradiou a sua imensa generosidade e marcou com sua solidariedade o coração de inúmeros amigos.

Homem sincero e cumpridor da palavra empenhada, teve a admiração das mais proeminentes figuras do Crato, mas sempre manteve uma profunda coerência com os seus princípios de simplicidade, de honestidade e de respeito pelo próximo. Se tanto ajudou os outros, com o seu espírito de desprendimento e de solidariedade, tudo fez pelos filhos. Trabalhou noite e dia, em ininterrupto e desmedido esforço, junto com a sua esposa, para que os filhos estudassem em centros mais adiantados, como Fortaleza e Ouro Preto. Para ele, não era importante amealhar bens materiais. Compreendeu, desde cedo, que a grande riqueza, que a grande herança que poderia deixar para os seus filhos, seria a educação, o seu exemplo de retidão, de amor, de bondade, de amizade, de solidariedade e de sabedoria. Não satisfeito, vendo os filhos formados e bem encaminhados, quis, também, que seus netos, seguissem as mesmas lições de vida e de ética. Incansável, já velhinho, velhinho, quis, ainda, para seus bisnetos todos os exemplos do bem.

Pastor das coisas intangíveis, deixou o legado invisível e de imensurável valor, plantado nos espíritos dos seus filhos, netos, bisnetos, irmãos, parentes, descendentes e amigos: o exemplo da sua bondade e do seu amor.

Durante o sofrimento com a prolongada doença, nunca reclamou da sua dor. Fui um sereno guerreiro, um homem de luz. Zé Moura amou a vida como um monge budista, em sua profunda aceitação e serenidade. Sua família, a esposa, Dona Anita, os filhos e os netos estiveram sempre ao seu lado.

Insondáveis são os mistérios de nossa existência. A morte é a completude do homem. Só com a morte, podemos saber, em profundidade, quem era o homem que nos honrou com sua iluminada presença, durante sua rápida passagem pela terra. No momento derradeiro, ali estava Seu Zé Moura, pobre como São Francisco, que nenhuma riqueza material este homem guardara para si. No entanto, como era grande esse homem! Tremem de emoção, de saudade e de reconhecimento todos os que o conheceram e foram transformados pelo seu amor.

Numa época de exacerbação dos valores materiais, em que muitos são lembrados e louvados pelas suas posses ou pelo tamanho dos marcos físicos que na terra deixaram, Seu Zé Moura dá-nos um comovente exemplo de vida. Nada, nada de material esse homem deixou. Talvez, por isso, tenha deixado o seu tesouro maior: a paz dos seus olhos claros, a doçura do seu sorriso, as palavras amigas, o gesto de solidariedade, as brincadeiras, os bombons que distribuía com os netos, bisnetos e crianças da vizinhança; uma paciência, sem fim, diante das agruras e dos sofrimentos da vida que ele tornou sagrada.

José Alexandre de Moura foi um lírio do campo que fiou e que teceu a ternura da vida. No entanto, nem o mais poderoso e rico dos homens foi capaz de irradiar tanta simplicidade e tanto amor, no cumprimento da sua breve missão sobre a Terra. Ele não esperou que a vida e a absurda condição humana lhe dessem um sentido para a sua existência, ele mesmo o fez e humanizou a vida.


Fortaleza, 10 de abril de 2009
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