quarta-feira, 26 de março de 2008

O Coco do Cariri: você sabe como é?


Por Sheyla Graziela
Fotos: Yuri Lacerda

As pessoas formam uma roda, a pisada é forte e ritmada, versos são ditos, as palmas complementam os instrumentos de percussão...O Coco é celebração, os participantes geralmente se reúnem ao ar livre, em contato com a natureza e a memória dos antepassados espreitando a alegria da ocasião. Uma manifestação cultural que ora é dança, ora é brincadeira, a denominação depende mesmo é do grupo que a executa.

O Coco chegou ao Ceará com os escravos africanos que vieram trabalhar nos engenhos de açúcar. As influências são muitas, dos portugueses herdou-se o movimento da roda, algumas coreografias assimilaram influências indígenas, dos africanos veio a tal umbigada, que funciona assim: o dançarino solista dá uma pancada com o umbigo na pessoa ou nas pessoas que deverão substituí-lo.

A cuíca, o pandeiro, o ganzá e o triângulo são os instrumentos musicais necessários para acompanhar a brincadeira. Dizem que começou como cantiga de trabalho utilizada pelos negros enquanto quebravam o coco para a manufaturação. Impossível é classificar porque a nomenclatura vem sempre de situações muito particulares, como o local, daí surgiu o Coco de Usina, Coco do Sertão e Coco de Praia, outras vezes dependendo do tipo de instrumento utilizado, existe o Coco de Ganzá e o de Zambê (uma espécie de tambor), ou ainda decorrente do processo de composição musical como o Coco de Toeira ou Embolada.

Na região do Cariri existem vários grupos que preservam a tradição de seus ancestrais dançando Coco, segundo o presidente da Fundação de Folclore Mestre Eloi, Antonio Carlos Ferreira Araújo (professor Cacá Araújo), a desenvoltura coreográfica faz alusão às danças primitivas de negros e índios, atualmente temperadas por versos de inspiração trovadoresca medieval no estilo mais nobre dos cantadores sertanejos. “É o sertão revelando-se universal em sua alma brincante”, diz.

É interessante perceber como a brincadeira vai se adequando à população local, o coco de praia é formado exclusivamente por homens, o coco do sertão é dançado aos pares (homens e mulheres). No Crato, o grupo A Gente do Coco apresenta características notáveis, os pares são formados somente por mulheres, sendo que uma parte delas faz o papel do cavalheiro na dança. E as coquistas têm idade entre 49 e 87 anos, Edite Dias de Oliveira Silva é mestra desse grupo de mulheres do bairro Gisélia Pinheiro (conhecido por Batateiras) e conta que quando começou os homens não queriam participar, por isso veio a idéia de formar pares de mulheres, mas acredita que se resolvessem convidar os homens para a dança hoje, eles aceitariam porque já perceberam “o sucesso” conquistado.



Edite Dias conheceu a brincadeira do coco em 1979, aprendeu com uma amiga, hoje é a mestra de um grupo de 17 integrantes, são sete mulheres que se vestem de cavalheiros, sete que são as damas, uma que puxa a toeira, e um menino que é pandeirista. O que é toeira? Mestra Edite explica de forma simples: “É o canto que a gente canta”. Ela vai puxando as toeiras (os versos), as outras pessoas da roda respondem com palmas, pisadas e refrãos. O único instrumento de percussão que A Gente do Coco possui é o pandeiro. “Há muito tempo que a gente fala nisso aí mas nunca achamos um patrocinador que nos desse outros instrumentos e o nosso grupo é pobre porque nós somos todas agricultoras”, diz dona Edite.

Cacá Araújo relata que as mulheres da Batateira são trabalhadoras rurais politizadas, participam de movimentos comunitários, lutas sindicais, e executam um espetáculo primoroso, com coreografias marcadas por pisadas fortes e voltas em roda. “Umas avós, outras já bisavós, com resistência física, beleza rítmica e alegria”, afirma. Maria Raimunda Sena de Sousa é uma das damas que compõe o grupo, tem 76 anos, dança coco há 32 anos e diz que o médico recomendou exercício físico porque ela tem problema na coluna e dores nas pernas. “Aí eu acho é bom, quando eu tô brincando pronto! Desaparece tudo e eu num tô é sentindo nada, quando eu tô quieta dentro de casa, é toda encriquiada(sic), é toda dura”, diz.

Os ensaios acontecem apenas uma vez por mês, no quintal de dona Edite sob uma enorme mangueira. Quando estão programadas apresentações públicas elas aumentam o número de encontros. As damas se apresentam com uma saia rodada de babado com elástico na cintura, uma blusa soltinha com babado grande e um laço na frente, aquelas que se vestem de cavalheiros usam uma calça comprida feita do mesmo pano da blusa das mulheres e uma camisa do mesmo pano das saias. Para calçar utilizam sapatilhas ou sandálias de couro. Os versos são criados de acordo com o local em que vai ser feita a exibição, quando ocorre numa praça eles ensaiam uma cantoria que fale sobre esse lugar.

A partir da orientação do folclorista Eloi Teles de Morais foi criado um grupo de coco infantil há alguns anos, o Coco Mirim da Batateira, que tem Edite Dias de Oliveira Silva como mestra e Raimunda Queiroz Vitorino como mestra coordenadora. A iniciativa repercutiu de forma satisfatória e hoje já existe o Coco Misto, que reúne meninos e meninas brincando coco, diferindo do adulto pelas pisadas e toeiras.

Segundo mestra Edite as crianças estão fazendo um coco mais “teatral”, onde os passos (pisadas) vão representando as situações, no momento que o verso fala em pisar o milho o cavalheiro faz como se estivesse pisando o milho, quando fala em peneirar a mulher faz de conta que está peneirando. Ela explica que com o grupo A Gente do Coco há dificuldade em fazer algo assim tão elaborado porque é complicado para uma senhora decorar tantas minúcias. “Nós preparamos esses grupos mirins que é pra ver se quando a gente não tiver mais condições de tocar esse barco, eles têm condições de levar isso aí”, disse.

Cacá Araújo explica que é essa herança cultural transmitida aos mais jovens que garante a longevidade aos folguedos, embora seja natural a incorporação de alguns elementos e a perda de outros. “Sempre foi assim. Da idade da pedra, passando pelo surgimento da agricultura, até os tempos da modernidade, podemos, querendo, identificar elementos constitutivos da alma criadora do homem, com roupagens mais ou menos diferentes, mas com a essência original”, diz.



FUNDAÇÃO DO FOLCLORE MESTRE ELOI

Em 1997 foi criada por Eloi Teles de Morais, Cacá Araújo, Rosemberg Cariry e mestres dos folguedos locais a Fundação Casa do Folclore Cego Aderaldo. Após o falecimento do Mestre Eloi em 2000, foi feita uma homenagem dando à Fundação o nome dele. Mestre Eloi era cordelista e radialista, trabalhando na rádio Educadora com o programa Coisas do meu Sertão, recitou poetas populares como Zé da Luz, Cego Aderaldo e Patativa do Assaré, incentivou e divulgou as manifestações do folclore da região do Cariri. Hoje a Fundação do Folclore Mestre Eloi busca difundir e preservar as tradições populares, reúne 20 grupos folclóricos diversos e mantém um Conselho formado por mestres do saber popular.

Fundação do Folclore Mestre Eloi:

R.Mons. Fco. de Assis Feitosa, 576, Centro – Crato – Ceará – CEP.: 63.100-360

Tel.: 88 35237430 - 88 35231333
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